terça-feira, 19 de agosto de 2014

não sou suficientemente gente. Só pareço




Arte de Jim M. Berberich



""Vocês até parecem gente", disse o mendigo que passava do lado de fora do café onde eu estava confortavelmente sentada, lendo a biografia de Clarice. Ele disparou a frase, fitou cada um nos olhos por poucos segundos - que pareceram uma eternidade - e continuou a andar. "Vocês até parecem gente". Era um xingamento? Um elogio? Uma ironia? Quase pulei a grade que nos separava e saí correndo para perguntar o que aquele homem, do alto da sua sabedoria das ruas, tinha para dizer. Mas me segurei. Olhei o relógio. "Tá quase na hora do Thiago chegar", pensei, inventando uma desculpa para não ir atrás do homem. Mas a verdade é que tive medo. Medo de olhar para os olhos dele e descobrir que não sou suficientemente gente. Só pareço."



 Germana Zanettini

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

tente abrir a bolsa de uma mulher. A reação, muito provavelmente, será equivalente a uma catástrofe.


Arte de Jana Magalhães

“Ao abrir a bolsa de uma mulher, nos deparamos com tudo o que faz sentido na vida dela naquele momento, como fotos de pessoas queridas, itens de maquiagem, elementos de proteção, bilhetes, livro, objetos carregados de afetividade e significado. Se você, homem, não entende do que se fala aqui, faça o teste e tente abrir a bolsa de uma mulher. A reação, muito provavelmente, será equivalente a uma catástrofe.

Bolsas também possuem dupla função, já que o interior é quase uma dimensão sagrada, um mundo à parte, longe dos olhares e julgamentos do resto do mundo, enquanto o exterior praticamente define o status social da dona. Se é estruturada, se é molenga, se é de tecido, de lona, de couro, de nylon, se é de grife famosa, desconhecida ou fake, são todos símbolos que escancaram (totalmente ao contrário do interior) para o mundo quem é aquela mulher. Ou ao menos te dá uma boa idéia.”

Jean-Claude Kaufmann no livro “Le sac. Un petit monde d’amour”

Você vai ter que viver


Arte de Mónica Fernández

 "Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê"

Vinícius de Moraes

a vida só se dá pra quem se deu




Arte de Elena Gromova

"Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu"


Vinícius de Moraes

Ser sensível nesse mundo requer muita coragem.




Arte de Elena Shumilova

"Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Muita. Todo dia. Esse jeito de ouvir além dos olhos, de ver além dos ouvidos, de sentir a textura do sentimento alheio tão clara no próprio coração e tantas vezes até doer ou sorrir junto com toda sinceridade. Essa sensação, de vez em quando, de ser estrangeiro e não saber falar o idioma local, de ser meio ET, uma espécie de sobrevivente de uma civilização extinta. Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada. Esse amor tão vívido em terra em que a maioria parece se assustar mais com o afeto do que com a indelicadeza. Esse cuidado espontâneo com os outros. Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada. Esse melindre de ferir por saber, com nitidez, como dói se sentir ferido."

Ana Jácomo

domingo, 17 de agosto de 2014

Tristes tempos estes nos quais a alegria é obrigatória




Arte de  Nikolay Stoev


"Pule, pule, saia do chão é a ordem nesses tempos em que vivemos uma epidemia festiva.
Tristes tempos estes nos quais a alegria é obrigatória. Nada é suficiente. Mais, mais, mais, só paramos na exaustão, ou quando um acidente nos para. Mais, vamos, além do limite, não há limite. Talvez o céu para os piedosos; o inferno, para a maioria. 

Se a balada está lotada, mais, empurrem, sufoquem. Se a garrafa acabou, mais, vamos, bebam, brindem, festejem. Se o carro está rápido, mais, depressa, corram, não importa a estrada. 

Se alguém lhes chateia, deletem. Se o curso está aborrecido, mudem. Se o livro é grosso, saltem as páginas.

Se o amor não corresponde, desamem imediatamente.

A ordem é uma só: prazer a todo custo, inconsequente, superficial, fugaz, mas prazer.


(...)E agora, como suportar essa época de folia obrigatória, de excesso, de desmedidas?"

Jorge Forbes