sexta-feira, 20 de maio de 2016

Revirar a vida é altamente terapêutico Basta ousar um pouquinho e colocar de ponta cabeça algumas velhas convicções.




Arte de Barbara Issa

Há quem acredite que quando nos sentimos muito bagunçados por dentro, costumamos ser acometidos por um desejo quase irresistível de arrumar as coisas do lado de fora. Até que faz sentido. De qualquer forma, é inegável o fato de que quando tiramos o dia para colocar algumas coisas em ordem, externamente, acabamos nos deparando com coisas muito significativas para nós, internamente.

Limpar, revirar, arrumar, trocar de lugar, livrar-se. Qualquer um desses verbos cabe perfeitamente, tanto em situações concretas quanto abstratas, a depender da nossa disponibilidade e nível de desapego para o momento. Quem de nós já não encontrou caixas de cartas, ou fotos antigas, enquanto limpava um armário ou uma gaveta. O simples encontro casual com registros afetivos, abre portas de ressignificação dentro de nós. 

Dificilmente, conseguiremos dar prosseguimento à faxina externa, sem antes nos permitirmos dar uma boa visitada nas lembranças. E, de repente, bem ali num dos cantos guardados e esquecidos do guarda-roupas ou de uma gaveta qualquer, dormia uma versão antiga de nós que amou alguém que não ama mais, que usou uma roupa que já não serve mais, que tinha um olhar que ficou para trás.

Revirar a vida é altamente terapêutico, nem que seja uma revirada aparentemente sem grandes proporções. Basta ousar um pouquinho e colocar de ponta cabeça algumas velhas convicções.

E, depois de revirar, arrume. Arrume tempo para ver os amigos ao vivo; olhá-los nos olhos, abraçá-los sem pressa, rir de lembranças tolas, se perder em tolas conversas.

Aproveite a onda de entusiasmo e troque tudo de lugar. Troque a preguiça, por vontade; troque o mau-humor por leveza; ponha alegria no lugar da tristeza; troque toda a frieza por bondade. Troque uma vida previsível por algum sonho que ficou perdido; troque a comodidade da rotina pelo risco de um talento novo, desconhecido. Troque a certeza que aprisiona pela pergunta que liberta; a mágoa que azeda a alma pelo perdão que alforria; a expectativa que impede de enxergar outra possibilidade, uma nova perspectiva uma outra vida.


Ana Macarini  


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